Proposta
é zerar déficit do setor
O estudo não se limitou a fazer um diagnóstico do setor. Também
propõe uma reforma radical do sistema previdenciário, que se for
encampada pelo governo ou por algum dos candidatos à Presidência
nestas eleições promete render muita polêmica. A meta é
zerar o déficit de 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto das riquezas
produzidas pelo país num ano) — equivalente a quase R$ 94 bilhões
— entre contribuições e benefícios e reduzir as despesas
com o pagamento de aposentadoria dos atuais 12% para até 8% do PIB. Isso
poderia ser alcançado em 15 anos.
O primeiro passo seria a unificação dos dois regimes em vigor
no país (INSS e funcionalismo público) e a substituição
da aposentadoria pela Renda Básica do Idoso. Concedido a todos os brasileiros
a partir de 65 anos, independentemente de contribuição anterior,
o benefício corresponderia hoje a, no máximo, um salário-mínimo.
As aposentadorias já concedidas não seriam revistas e quem contribui
atualmente para a Previdência teria direito a uma regra de transição.
A preços atuais, renderia pagamento extra de até três salários.
O valor do benefício da Renda Básica do Idoso e da regra de transição
deixaria de ter relação com o salário-mínimo oficial
para seguir a variação do PIB per capita do país. A proposta
mexe também com o FGTS, que passaria a ter contribuição
compulsória de servidores públicos. O fundo seria transformado
em seguro-desemprego e no Fundo de Aposentadoria Capitalizado. Demitido, o trabalhador
poderia sacar só parte do saldo, enquanto o restante seria liberado na
aposentadoria.
— Parte da elite capturou o Estado e essa conta está ficando alta
demais — afirmou Maria Helena Zockun, coordenadora do grupo de economistas
da Fipe.
A iniciativa da Fecomércio-SP faz parte de um movimento intitulado “Simplificando
o Brasil”. O primeiro trabalho nessa linha foi publicado no mês
passado, com propostas de reforma tributária. Agora, as sugestões
se referem à Previdência e ao setor trabalhista. Até o fim
deste mês, a entidade divulgará mais um documento, desta vez sobre
a burocracia que cerca os investimentos no país. Para apresentar este
segundo estudo, a federação promove hoje seminário com
a presença dos economistas José Pastore, especialista em relações
trabalhistas, e Walter Barelli, ex-ministro do Trabalho e hoje deputado pelo
PSDB.
Também radical é a proposta de reforma trabalhista apresentada
pelos economistas da Fipe. Uma das sugestões é substituir a “extensa
legislação de direitos individuais” que vigora atualmente
por uma lista “enxuta de direitos básicos”. Entre esses direitos,
permaneceriam o salário-mínimo, limitações ao aumento
da jornada semanal de trabalho e normas de saúde e segurança no
ambiente de trabalho, entre outros.
Por entender que a maioria dos dispositivos da Consolidação das
Leis Trabalhistas (CLT) é anacrônica, o trabalho sugere também
a criação de regras específicas para demissão —
que seriam negociadas diretamente entre empresas e trabalhadores. Algumas das
opções prevêem contratos de trabalho sem a proteção
da CLT (cargos de chefia, por exemplo) e demissões sem justa causa.
Aceita por patrões e empregados, a desoneração da folha
salarial tem mais chances de angariar apoios. O que se propõe é
a eliminação de todos os impostos e contribuições
sobre a folha de salário, deixando apenas o IR com uma única alíquota.
De cada cem reais de custo do trabalho para a empresa, o trabalhador leva para
casa apenas R$ 65,30. O resto vai para o governo na forma de impostos e contribuições.
Esse peso excessivo tem seu preço: salários nominais mais baixos
e mercado de trabalho estrangulado, com aumento da informalidade.
— Se me perguntam se existe ambiente político para aprovar essas
propostas, digo que o Congresso só se mexe a partir da pressão
da sociedade — disse Maria Helena.