O
reajuste reacende a discussão sobre o déficit da Previdência,
que gasta muito mais do que arrecada – são cerca de R$ 165 bilhões
em benefícios pagos a 24 milhões de brasileiros, dos quais 67%
ganham apenas um salário mínimo.
O ministro Nelson Machado falou à Gazeta do Povo na última sexta-feira,
antes de encontro com empresários em Curitiba para a assinatura de uma
parceria.
O
reajuste aos aposentados será votado antes de caducar?
Torço para que sim. Discutimos a questão com todos os representantes
sindicais e fizemos um acordo de reajuste de 5%, que inclui a correção
pelo INPC mais uma parcela de ganho real. Só isso está custando
R$ 1 bilhão a mais nas despesas da Previdência. Mandamos para o
Congresso, mas infelizmente caiu-se numa luta político-eleitoral em que
se pede reajuste de 16%. Mas temos que ter responsabilidade fiscal e pensar
no curto e no longo prazo. No longo prazo, não é sustentável
esse reajuste para quem ganha mais de um salário mínimo.
Qual
a perspectiva de se fazer uma reforma profunda na Previdência para combater
o déficit?
Não sei se há necessidade disso nesse momento. Acho que a discussão
está muito ideologizada, mas precisa de calma. Hoje precisamos melhorar
as condições, com uma série de pequenas alterações
legais que já estão no Congresso e poderiam melhorar muito a arrecadação.
Um exemplo seria a unificação da Secretaria da Receita Federal
com a da Previdência, melhoraria o combate à sonegação.
Outra lei seria o ajuste do auxílio-doença que cria uma alíquota
diferenciada de 11% para contribuintes individuais. Podemos ainda elevar a faixa
de mão-de-obra empregada e assim buscar o equilíbrio fiscal.
Será
necessário elevar a idade mínima para a aposentadoria?
Em algum momento será preciso discutir a idade mínima, pois os
jovens hoje têm expectativa de vida muito maior do que antes. É
evidente que terão de trabalhar mais para se aposentar. Mas ainda não
somos uma Alemanha, que elevou a idade mínima para 80 anos, o que seria
um terrorismo para o trabalhador brasileiro. Não é uma questão
para ser discutida em momentos de tensão, pois a Previdência é
solidária: os trabalhadores de hoje estão pagando para quem trabalhou
no passado.
Previdência
privada é solução?
No modelo brasileiro ela é apenas complementar. O Brasil está
baseado na previdência pública, e a complementar para rendimentos
acima de R$ 2,8 mil, para quem quiser uma aposentadoria maior. O modelo chileno
de privatização da previdência gerou sérios problemas,
pois tem gente cuja poupança acaba antes de morrer. E quem vai dar renda
a eles?
É
possível alcançarmos o fim das filas nas portas das agências?
Essa é uma missão que o presidente Lula me deu. Para isso estamos
apostando na tecnologia de teleatendimento, na capacitação e profissionalização.
Tenho convicção de que o processo já está dando
resultado.
O
recadastramento de idosos gerou muita confusão no início. Deu
resultados?
Desde outubro de 2005 já fizemos o recenseamento de 6 milhões
de aposentados e pensionistas e devemos alcançar 17 milhões em
meados do ano que vem. Era para ser feito, por lei, desde 1991, e só
saiu agora. Com ele, conseguimos dados atualizados, o que torna o sistema mais
eficaz e é possível suspender benefícios imediatamente
depois da morte do aposentado.
O
que faltou fazer no seu mandato?
Falta votar o que enviei para o Congresso. São medidas que vão
melhorar o atendimento, combater fraudes e trazer novos contribuintes. Outra
lei trata do segurado especial rural, que seria importante aprovar.
E
que legado o senhor deixa, caso encerre este ano sua passagem pela Previdência?
Cumprimos nossos objetivos, estou satisfeito. Mas ainda tenho seis meses de
trabalho. Se pudesse falar do que eu fiz e que já está maduro,
falaria do recenseamento e do atendimento nas agências com hora marcada.
Essa foi a grande realização.