04.07
- Cresce a «desaposentadoria»
José Marcelo dos Santos - Hoje em dia
A queda dos salários e a obrigatoriedade de contribuir com a Previdência
Social está causando um fenômeno novo no serviço público
federal: a «desaposentadoria». Trabalhadores que já haviam
deixado o cargo estão retornando à carreira em busca dos antigos
salários. As chamadas reversões de aposentadorias já começam
a provocar resultados negativos para a sociedade: o serviço público
tende a ficar cada vez mais lento e gerará cada vez menos postos de trabalho.
É o que aponta o Sindicato dos Servidores Públicos Federais (Sindserp),
que estima que, por medo das perdas, um terço, ou 108 mil servidores,
em idade de se aposentar, continuam trabalhando para não perderem dinheiro.
As reversões de aposentadoria são uma medida legal e muitos trabalhadores
estão retornando à ativa porque ao se aposentarem eles não
recebem os mesmos índices de reajustes que os profissionais da ativa.
Também não incorporam gratificações específicas
e com isso o padrão de vida deles acaba despencando, segundo dados do
Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco). A perda pode
chegar a R$ 4 mil por mês.
A situação levou de volta ao trabalho a auditora Francisca Nogueira
que, no topo da carreira pública e depois de 30 anos de contribuição,
resolveu se aposentar. Ficou apenas dois anos e pediu reversão. «Se
eu não voltasse, em pouco tempo eu não conseguiria comprar nem
meus remédios», diz a ex-aposentada que voltou ao posto onde iniciou
a carreira. «Dei sorte de trabalhar em um lugar muito bom, com colegas
muito bons», diz. Mas nem todos têm a mesma sorte e a situação
pode gerar constrangimentos e desconforto, segundo o diretor-adjunto de assuntos
de aposentadorias, proventos e pensões da Unafisco, José Carlos
Nogueira Ribeiro.
O funcionário aposentado tem até cinco anos para pedir a reversão,
segundo Nogueira. O Governo tem de analisar cada caso e avaliar a situação
de cada servidor. Geralmente o pedido é aceito e o benefício para
o Governo é o fato de ter de volta um profissional que conhece a instituição
e o processo de trabalho, segundo ele, que admite o medo de muitos servidores
em deixar a carreira.
Um exemplo de quem nem pensa em se aposentar em função de perdas
vem do servidor João Nóbrega. Embora tenha mais de 30 anos de
contribuição, ele quer continuar na ativa. Diz que a necessidade
de se manter ocupado é um dos motivos para continuar trabalhando, mas
que a preocupação com as perdas financeiras é outro forte
motivo. «Hoje eu perderia em torno de R$ 2,8 mil se me aposentasse e para
compensar isso eu teria de arranjar um emprego muito bom na iniciativa privada,
que quer profissionais cada vez mais jovens», destaca.
Professor de economia avalia que reversão pode piorar os serviços
prestados
A mesma reversão de aposentadorias que beneficia servidores públicos
gera transtornos para a sociedade, que pode ter um serviço público
ainda mais lento. Problema também para o Governo, que perderá
em eficiência. É o que avalia o professor de Economia da Universidade
de Brasília (UnB), Roberto Piscitelli. Além disso, a situação
não permite a renovação do quadro de trabalhadores e trava
o desenvolvimento, na avaliação do secretário-geral do
Sindicato dos Servidores Públicos Federais (Sindsep), José Ricardo
Jacome.
Na avaliação do sindicalista, as políticas de reforma previdenciária
adotadas pelo Governo são a causa da situação. Jacome estima
que dos 360 mil servidores federais da ativa, pelo menos 108 poderiam se aposentar
imediatamente. «Mas eles não querem correr o risco de não
ter dinheiro nem para comprar remédios. Muitos só se aposentarão
compulsoriamente, quando completarem 70 anos. E o problema é que nesta
idade muitos não têm condições de desempenhar funções
que exigem aperfeiçoamento e convivência com tecnologia»,
avalia.
O professor da UnB traça um paralelo entre a situação atual
e o cenário registrado até o início dos anos 90. «Tínhamos
filas de pessoas querendo a aposentadoria. Mas as perdas e as não incorporações
dos benefícios causaram esse problema», diz. A saída, segundo
ele, é uma mudança na política e o respeito ao conceito
de paridade entre servidores da ativa e aposentados. Do contrário, segundo
Piscitelli, a situação tende a se agravar cada vez mais. Insistentemente
procurado para falar sobre o assunto, o Ministério do Planejamento, que
cuida da situação dos servidores federais, não retornou
aos pedidos de entrevista.