Está
em estudo no governo, de forma silenciosa e discreta, a implementação
de uma segunda reforma da Previdência e a adoção de uma
política mais flexível do regime de metas de inflação
a partir de 2007 caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito.
Lula tem dito a membros da equipe econômica que está satisfeito
com os indicadores e não quer "inventar" mudanças num
eventual segundo mandato. Só que ele e seus auxiliares sabem que não
será possível crescer sem enfrentar o déficit da Previdência
e temas espinhosos, como a desvinculação de receitas da saúde.
A Folha apurou que esses temas, que despertam reações negativas
no PT, na sociedade e no mercado, não serão abordados abertamente
na campanha. O discurso eleitoral será genérico, apontando especialmente
a redução gradual da taxa básica de juros e de mais investimentos
públicos como elementos cruciais para se obter crescimento econômico.
A nova reforma da Previdência não englobaria, inicialmente, mudanças
no fator previdenciário (alteração no tempo de contribuição
e idade para concessão das aposentadorias), conforme relatos de auxiliares
do presidente.
A idéia central é apertar o cerco à concessão de
alguns benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), como
auxílio-doença, e investir na informatização de
todos os postos do país para reduzir fraudes. Ainda neste ano o governo
enviará ao Congresso todos os projetos para regulamentar os fundos de
pensão do servidor público, assuntos pendentes desde a aprovação
da reforma em 2003.
Caso as iniciativas para aumento de arrecadação da Previdência
não produzam os resultados esperados, a mudança no fator previdenciário
não está descartada. "A Previdência tem de ser continuamente
avaliada e reorganizada", disse à Folha o ministro do Planejamento,
Paulo Bernardo.
Os auxiliares diretos de Lula não trabalham com a perspectiva de redução
do superávit primário, como defende o PT. "Vamos manter o
superávit de 4,25% num segundo mandato, e acreditamos que, com uma taxa
média de crescimento de 4,5% do PIB, conseguiríamos praticamente
zerar o déficit de governo em quatro anos", afirmou Bernardo.
Superávit
As apostas do governo para que a média de crescimento supere 4,5% estão
escoradas na redução da Selic (hoje em 15,75%). "Diminuindo
a taxa de juros diminui o peso da conta do Tesouro, e [com isso] temos condição
de zerar o déficit nominal. Acho perfeitamente possível conseguir
isso no próximo mandato", afirmou Bernardo.
O PT rejeita discutir a proposta do déficit nominal zero, elaborada pelo
ex-ministro e deputado Delfim Netto (PMDB-SP). Ele alerta que o déficit
da Previdência pode chegar a 3,4% do PIB em 2010 e que esse cenário
exigiria um superávit de pelo menos 6% para evitar o descontrole da dívida
pública. As ponderações de Delfim são consideradas
por Lula.
Se uma nova reforma da Previdência e o aumento do superávit causam
celeuma entre petistas, a mudança nas metas de inflação,
por outro lado, agradaria ao partido. Essa é uma bandeira antiga do líder
do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), e do ministro Guido Mantega
(Fazenda).
A aposta é que, com a inflação sob controle e juros em
queda, seria possível ampliar o intervalo de tolerância do regime
de metas (hoje de dois pontos percentuais) ou o período em que se persegue
a meta (fixada em 4,5%) de 12 para 24 ou 36 meses. Essa mudança permitiria
ao governo aumentar gastos sociais. "Temos que assumir o que muda e o que
será mantido. Meia dúzia de frases de efeito não vão
colar", disse Mercadante.