02.05 - O Mínimo e a Previdência
Fonte: REVISTA CARTA CAPITAL

O grande desafio do futuro presidente será equacionar o déficit gerado pelas aposentadorias.

Um dos pontos mais intrigantes em algumas áreas do governo é a sua equivocada interpretação do papel do salário mínimo e de suas conseqüências micro e macroeconômicas. É claro que ninguém discute a utilidade do salário mínimo como um dos ingredientes da rede de proteção social que toda economia de mercado deve manter para minorar as agruras daqueles que, pelos mais variados motivos, têm dificuldades de enfrentar o feroz processo competitivo que a caracteriza. Colocado dessa forma, já se vê que não importa por quais caminhos o mínimo deva gerar um custo econômico que a sociedade paga para tornar mais aceitável a busca frenética de eficiência que a domina.

Não deixa de ser divertido assistir a ministros afirmarem que, se 40 milhões de brasileiros recebem o mínimo, um aumento de 20 reais significa um acréscimo de 800 milhões de reais de demanda de bens e serviços, que vão se multiplicar com a continuação das compras daqueles que receberam os benefícios da onda inicial. O que não se perguntam é de onde vieram os 800 milhões de reais iniciais?

Se os beneficiários estiverem empregados nas empresas e estas não puderem ajustar os seus preços, eles virão da redução dos lucros, que seriam gastos de outra forma. Se todas as empresas têm um aumento de custo, é provável que, mesmo com uma concorrência feroz, parte do aumento do salário será transferida para os preços, reduzindo o poder de compra de outros consumidores. O aumento líquido de demanda será, assim, apenas o produzido pela diferença da propensão a consumir dos que recebem o aumento com relação àqueles que o financiam.

No caso de servidores públicos, o problema é o mesmo, mas o diferencial da propensão a consumir será praticamente nulo: o gasto que o ente federativo faria comprando bens de consumo ou fazendo um investimento é substituído pelo aumento de gastos com o salário mínimo. Altera-se apenas a qualidade da demanda, mas não a sua dimensão. Aqui o problema é mais complicado porque, “na ausência de não ter o que cortar”, o aumento salarial será financiado por uma redução do superávit primário. Isso significa – se tudo o mais ficar constante – um aumento do déficit público nominal, que aumentará a relação Dívida Pública/PIB, com todas as suas conseqüências.

No caso brasileiro, há uma questão adicional colocada pela vinculação entre a remuneração dos aposentados e o salário mínimo. De novo, é preciso reconhecer que a rede de proteção social deve incluir a estabilidade do poder de compra das aposentadorias. É, entretanto, pelo menos duvidoso concluir que essa proteção tem de se estender à correção das aposentadorias pelos ganhos de produtividade. A falta de entendimento do governo com relação à fixação do mínimo revela irresponsabilidade fiscal, que termina (como tem terminado) num aumento persistente do déficit do sistema de seguridade social.

Uma forma simples de entender isso é a seguinte: o equilíbrio do sistema depende da igualdade entre os recebimentos do sistema (o número de trabalhadores L, que recolhem, multiplicado pelo seu salário médio de contribuição W, multiplicado pela taxa t de contribuição) e os pagamentos (número de aposentados A) multiplicados pelo salário mínimo e seus múltiplos para aposentadorias acima desse valor (M), ou seja:

L x W x t = A x M

A taxa de contribuição (t) de equilíbrio é dada por:

Ela depende, portanto, da relação salário mínimo/salário médio e da relação número de aposentados/número de contribuintes. Se a taxa de contribuição (t) for inferior à dada pela fórmula e não puder ser aumentada, o sistema produzirá um déficit.

A relação A/L (número de aposentados/número de trabalhadores contribuintes) aumenta de forma lenta (mas exponencial) com a revolução demográfica (envelhecimento) que estamos vivendo. O número de pessoas com mais de 60 anos deve crescer em torno de 2,5% ao ano nos próximos 25 anos, chegando a 17% da população, quando hoje é de 9,1%. A relação M/W (salário mínimo/salário médio) depende do arbítrio do Executivo e do aumento de produtividade do sistema econômico.

Quando não se pode aumentar a taxa de contribuição, a diferença entre o montante que é dado pela equação e a efetivamente recolhida é despesa corrente do Tesouro Nacional. Na ausência de superávit primário adequado, ela transforma-se em déficit nominal, que aumentará a relação Dívida Líquida/PIB e dificultará a baixa dos juros reais.

O déficit da Previdência tem sido crescente e hoje anda às voltas de 2% do PIB. Ele termina como gasto corrente do Tesouro Nacional, deteriorando fortemente as contas públicas. Este talvez seja o mais grave problema a ser enfrentado por quem ganhar as próximas eleições.